ASSISTIDO
Redesenhando o registro de acolhimentos em saúde mental na Atenção Primária à Saúde — do diagnóstico sistêmico à proposta fundamentada.
O desafio era propor caminhos para melhorar o registro de acolhimentos em saúde mental na Atenção Primária à Saúde — o recorte operacional de um programa que a ImpulsoGov já conduz.
Este trabalho não entrega apenas uma solução. Entrega o processo: diagnóstico do ecossistema, análise de falhas, princípios de design, caminhos explorados e descartados, e uma proposta fundamentada em evidências reais.
A ImpulsoGov conduz um programa para qualificar acolhimentos em saúde mental na APS. O registro — a etapa que garante rastreabilidade, continuidade e dados para o sistema — é o ponto crítico: muitos profissionais não registram, ou registram de forma inconsistente e tardia.
Não se trata de falta de ferramentas. Existem três: o PEC (prontuário oficial), um bot WhatsApp da ImpulsoGov e o caderno físico comprado pelos próprios profissionais. Nenhuma delas foi desenhada para o momento e contexto real em que o registro precisa acontecer.
Este trabalho parte do pressuposto de que o problema não é de motivação nem de conhecimento — capacitações já foram realizadas sem impacto na adesão. O problema é estrutural e de timing.
| Critério | PEC | Caderno | Bot |
|---|---|---|---|
| Acesso em campo | ✕ PC | ✓ | ◑ Net |
| Dados ao governo | ✓ | ✕ | ✕ |
| PHQ-9 / GAD-7 | ✕ | ◑ | ✓ |
| Funciona offline | ✕ | ✓ | ✕ |
| Satisfação | Baixa | Precário | 38% |
O bot transferiu a fricção de meio, mas manteve a mesma lógica: parar, lembrar, digitar. A carga cognitiva permanece idêntica. Além disso, o WhatsApp compete com mensagens pessoais, gerando distração e abandono no meio do fluxo de registro.
Nenhuma das três soluções foi desenhada para o contexto real do campo: sem internet estável, sem PC disponível, com alta carga cognitiva acumulada e múltiplas interrupções ao longo do dia.
Denilson é ACS em Jacarezinho. Foi capacitado para conduzir acolhimentos em saúde mental e atua inteiramente em campo — sem mesa fixa, sem PC próprio, em rotas que atravessam múltiplas residências ao longo do dia.
Seu contexto impõe restrições reais: conectividade instável, PC compartilhado com fila de espera, alta carga cognitiva acumulada e interrupções constantes. O momento entre terminar um acolhimento e ter acesso a uma ferramenta de registro pode durar horas.
Roteiro de visitas
Domicílio do paciente
Sem sinal de internet
PC compartilhado
Gap de horas
Carga cognitiva alta
Capacitações foram realizadas sem qualquer impacto na adesão ao registro. Isso elimina a hipótese de falta de conhecimento ou motivação — o problema é estrutural, não comportamental.
Apenas 27% registram logo após o atendimento — o único momento em que os dados ainda estão íntegros na memória de trabalho. Os 73% restantes registram horas depois, ou não registram.
Comportamento = Motivação × Habilidade × Gatilho.
Motivação existe — profissionais entendem a importância.
Habilidade está restringida — o campo impede uso das ferramentas.
Gatilho está ausente — nada aciona o comportamento no momento certo.
ACS em Jacarezinho. Capacitado para acolhimento em saúde mental. A jornada mostra onde a informação se perde.
Antes de chegar à proposta final, três caminhos foram avaliados com rigor. Dois foram descartados por razões estruturais — não de implementação, mas de inadequação ao contexto real.
O registro como extensão natural do atendimento. Em vez de exigir que o profissional se adapte ao sistema, o sistema se adapta à realidade do cuidado.
Whisper rodando localmente para transcrição offline. LLM com prompt de domínio clínico extrai: tipo de acolhimento, queixa principal, PHQ-9, GAD-7, desfecho e encaminhamentos. Gollwitzer (1999): vincular a ação a um momento e lugar específico eleva a execução em até 3×.
Estes princípios foram derivados do diagnóstico de campo. Funcionam como filtros de decisão — qualquer escolha de design que viole um deles gera o mesmo problema que as soluções anteriores.
O blueprint mapeia cada camada do serviço em seis estágios: do acolhimento ao dado registrado no PEC. A linha de visibilidade separa o que o ACS experimenta do que acontece nos sistemas por trás.
| Camada | Acolhimento | Nudge | Captura | Validação | Sync | Integração |
|---|---|---|---|---|---|---|
| — LINHA DE VISIBILIDADE — | ||||||
| Frontstage | SM ~60min | Notificação no celular | Áudio 30–60s | Revisa · confirma | Automático | Automático |
| Backstage | App em standby | Geoloc / timer | Queue offline | STT + LLM | Sync manager | LEDI → PEC |
| Suporte | Capacitação ACS | Configuração | Modelo clínico APS | Prompt engineering | Cloud IG | Acordo municipal |
| Falhas | Privacidade | Ignorada | Ruído / sotaque | Erro de IA | Perda de dados | PEC rejeita |
Cada ponto de falha identificado no blueprint tem um mecanismo de mitigação correspondente na proposta: validação humana obrigatória para erros de IA, criptografia e2e para privacidade, descarte do áudio após transcrição para LGPD, e queue local para perdas de sync.
O serviço proposto não existe em isolamento. Ele articula três sistemas distintos — o app do ACS, a plataforma ImpulsoGov e o PEC federal — em um fluxo coerente de dados clínicos. O acordo municipal com a gestão local é o enabler crítico para a integração via LEDI APS.
A proposta final emergiu de um processo deliberado de eliminação. Três caminhos foram avaliados. Dois foram descartados não por preferência, mas por inadequação estrutural ao contexto.
O registro não falha por negligência. Falha porque o sistema foi desenhado para um contexto que não existe na ponta. Quando eliminamos a fricção estrutural e entregamos o gatilho certo no momento certo, o comportamento emerge naturalmente — sem disciplina adicional, sem sobrecarga.
Psicólogo e designer de produto. Trabalho na intersecção entre psicologia comportamental, design de serviços e tecnologia — acreditando que o design mais eficaz é o que torna o comportamento certo mais fácil que o errado.
Case Study — Teste Técnico
ImpulsoGov · Designer de Serviços Sênior
Abril 2026